domingo, 2 de junho de 2013

A Seleção em busca de um GPS

 
Edu: Você conseguiu ver alguma novidade daí que não vimos daqui?
Carles: Para mim o desempenho da comissão técnica brasileira foi pior do que o esperado. Fica a minha dúvida se o Felipão faz essas coisas para bancar o marrudo ou porque está completamente desorientado.
Edu: Ou as duas coisas, um marrudo desorientado.
Carles: Não vou nem discutir o esquema tático, mas ele foi capaz de variar o próprio esquema,  através de substituições, três ou quatro vezes durante o jogo e com intervalos de cinco ou dez minutos. Não há esquema nem equipe que se consolide assim. Entra atacante por volante. Passam uns minutos, sai atacante e entra volante e assim por diante. Sinceramente, fiquei sem entender. Você pode me explicar?
Edu: Claro que não.
Carles: Tem mais. No primeiro tempo, além da bonita camisa da Inglaterra, gostei do Oscar. Logo depois do intervalo, ele tira o garoto e só quando o Lucas encontrou sua posição no time, o Brasil voltou a dar trabalho à defesa da Inglaterra. Foi só eu que vi isso?
Edu: Vimos todos, mas, ao contrário do que ocorreu com você, o desempenho da comissão técnica para mim não foi pior do que o esperado. É exatamente o que espero de Feliparreira, como definiu um nosso fiel leitor hoje. Mexer quando não se deve, sem critério, e, principalmente, em quem não se deve é uma marca registrada de Felipão. Tomou o empate? Vamos fechar. Tomou a virada? Vamos abrir. Empatou de novo? Vamos mexer de novo. E ninguém providenciou um GPS para o nosso Flinstone. Perdidinho.
Carles: É engraçado que no auge da "tarde dos volantes", quando maior era a quantidade desses espécimes povoando o ainda deficiente gramado do Maracanã, foi então que os zagueiros brasileiros receberam mais ataques frontais do adversário. No segundo gol da Inglaterra, Rooney faz uma diagonal com a bola dominada, sem quase ser combatido, David Luiz foi recuando, recuando, até que o atacante inglês finalizou e, se não me engano, a bola roçou nas costas do Fernando, acentuando a parábola. O que esse estilo de treinador tem que entender é que não é suficiente colocar em campo um determinado perfil de jogador, mas a importância de como posicioná-los além de orientá-los na movimentação, em função do resto da equipe, dos objetivos táticos e das circunstância do jogo.
Edu: A bola desviou no Fernando, sim. E havia, sim, uma avenida diante da defesa quando estavam três volantes em campo. A virtude de perceber o óbvio também é atributo de técnico de futebol. Como é atributo de jogador. Xavi, um de seus preferidos (e meu também), sempre ressalta que as jogadas óbvias e mais simples são as mais eficientes. Mas na Seleção Brasileira há uma inversão de valores. Ninguém se preocupou em controlar a ansiedade de Dani Alves, o cara que mais perdeu passes no jogo. Nem em acertar a posição de Hulk, que começou pela direita e depois ficou dividindo um corredor com Neymar, inutilmente, entre a ponta e a meia esquerda. Além disso, o time nunca tinha treinado com três volantes. Mas Oscar, quem mais criou no primeiro tempo ao lado de Neymar, saiu rapidinho depois do intervalo sem nenhuma explicação. E Paulinho, no momento em que foi jogar onde efetivamente sabe, mais à frente, foi substituído logo depois de fazer o gol. Será que o objetivo é confundir?
Carles: Diante do que vimos hoje, existe uma grande probabilidade. E, para complicar, confirma-se a baixa forma de Júlio César. Digo mais, é visível a falta de preparação técnica e física do goleiro e não acho que escalá-lo como titular seja um favor. Ele ficou devendo depois da última Copa e, nessas condições, pode virar uma piada na memória do torcedor. Nunca foi um dos meus goleiros favoritos, mas também seria injusto que fosse essa a lembrança da sua carreira. Resumindo, acumulam-se as decisões equivocadas da comissão técnica.
Edu: Júlio, você sabe, é questão interna, é preferência absoluta do Parreira. Não acho que vão mexer nele, a menos que falhe sucessivamente. As outras decisões, ou não-decisões, é que são mais e mais preocupantes, reforçando a falta de coluna vertebral da Seleção. Por exemplo: não veremos jamais, ao que consta, Lucas e Oscar no mesmo time. Não importa que Oscar seja um cara que circule por todo o campo, enquanto Lucas funciona mais pela direita e em diagonal. Para a comissão eles são incompatíveis e nada vai mudar isso. Outro exemplo: Hulk. Não é nenhum grossão, mas destoa num futebol de toque. Só que, como é um touro, tem meio caminho andado. Você deve ter reparado que o time que começou foi reforçado por três caras mais altos e fortes, Luiz Gustavo, Filipe Luís e Hulk.
Carles: E o Hulk caindo pela direita, o velho truque do canhoto entrando em diagonal para arrastar o lateral e deixar aberto para o Dani. No quadro negro, muito bonito, só que apesar do Alves ser o lateral mais ofensivo da face da terra, ele não tem profundidade, costuma chegar até a altura da linha da área grande e, dali, faz a maioria dos passes ao centro da área. Portanto, não só não saiu a jogada como eles estavam absolutamente descoordenados, porque provavelmente também não tinham treinado juntos. Outro problema é que para permitir essa diagonal, é conveniente diminuir o número de jogadores pelo meio, inclusive do próprio time, e isso tampouco ocorreu, com a presença constante e inexplicável de Neymar por ali. Só melhorou quando Oscar passou a jogar pela direita. O resto da história já contamos.
Edu: E é bom lembrar que tudo isso aconteceu contra um adversário conservador, desinteressado, preguiçoso e que fez dois gols de treino. Não quero e prometo que não vou ouvir as explicações de Felipão. Teria que apelar a um estoque de ansiolíticos para suportar. E ando preferindo um bom suco de manga.
Carles: Pode ser só uma sensação, mas a tudo isso que você disse eu acrescentaria que a seleção inglesa vivia um day after, conhecido entre nós por "tremendo ressacão" (e não de suco de manga). Não será essa a estratégia de Felipão-Parreira e a gente aqui menosprezando a inteligência deles?

6 comentários:

Antonio Salles disse...

Gentlemen,

Eu acho que o Felipãp sabe que só tem 11 jogadores e nenhum reserva em nível de seleção. Talvez 12, se considerarmos Hernanes e Fernando como opções táticas. Com 11 jogadores não se ganha nem Torneio Início.
Hulk, Bernard e Damião são patéticos. A carência é tão grande que muita gente pede a convocação de Ronaldinho Gaúcho.
A esperança é a penúltima que morre, pois a última é a paciência. O problema não é tático, é falta de opções mesmo.

P.S. Tentei assistir São x Atlético Mineiro, com Ronaldinho e seus dribles torcicolo. Ridículo. No meu tempo a várzea era melhor.

Antonio Salles disse...

Eu quis dizer São Paulo x Atlético Mineiro.

Edu disse...

Desta vez discordamos, Salles. É nessas horas, quando o time não tem tantos craques, que um sistema mínimo precisa funcionar. E a Seleção está longe de ter um... Abraço

Carles Martí disse...

Detesto concordar, mas você tirou as palavras do meu teclado, Zé.

Carles Martí disse...

Abraço ao Salles e boa sorte ao seu tricolor.

Antonio Salles disse...

Não sei se isso é discordar, caros amigos.
Eu concordo que não há um desenho em campo, mas acho que nenhum treinador dará jeito nesse elenco.
Duvido que cheguem à semifinal, se houver arbritagem honesta.
Vamos ver.