quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Globalização, integração e os ‘exilados’ da vez


Carles: Vocês esperam muito jogador ‘exilado’ voltando por outras seleções, durante a Copa?
Edu: Desta vez nem tantos. Acho que o jogador brasileiro está meio fora de moda por aí.
Carles: Nós temos o Thiago Alcântara, não sei se o Del Bosque vai contar com ele. E o irmão, o Rafinha, diz que vai com a ‘canarinho’. Ambos filhos do Mazinho, ex-Palmeiras, Vasco e Seleção… Marcos Senna foi considerado o grande jogador na conquista da Eurocopa 2008, por muitos torcedores espanhóis.
Edu: O Thiago deu um sinal claro: preferiu jogar pela Espanha porque não é bobo nem nada. Mas não há muitos nessa situação, muito menos com a qualidade técnica dele. Muito diferente do Marcos Senna, que jamais teria uma chance por aqui, com tantos volantes que temos.
Carles: Do Rafinha vocês ouviram falar? Joga no Barça B, é o caçula.
Edu: Ouvimos sim, mas ainda é um desconhecido da maioria.
Carles: Tem um caso parecido de irmãos assim, na Alemanha, os Boateng.
Edu: Jerome e Prince, ambos nascidos na Alemanha, sendo que o Prince optou pelas origens e defende a seleção ganesa. Claro que, no caso deles, a opção por jogar por outra nacionalidade tem outras razões. Mas a adaptação do Prince à Itália e ao Milan foi bem mais tumultuada do que a do Jerome na Alemanha. Ele tem um gênio meio complicado...
Carles: O mais velho, pelo visto, é mais inquieto mesmo. Aliás, quem te viu e quem te vê, a Alemanha é dos maiores, se não o maior receptor de ‘estrangeiros’ na seleção. A começar pelos polacos: Miroslav Klose, Lukas Podolski e Piotr Trochowski… Podolsky, parece, nem falava alemão quando começou a jogar na seleção.
Edu: E tem o Cacau, do Stuttgart, nascido aqui no fervilhante ABC paulista, que até Copa do Mundo disputou. Imagino que o brasileiro é um pouco mais maleável e aberto a essas culturas esportivas da Europa. Tanto que alguns jogadores demoram um pouco para se adaptar quando retornam... Muitos, quando estão há tempos fora, estranham muito quando aparecem como o próprio Cacau e o carioquíssimo Eduardo da Silva, hoje croata, que já esteve no Arsenal e foi para o Shakhtar Donetsk.
Carles: Os próprios companheiros dizem que é impressionante a ‘germanização’ de Cacau. Poderíamos dizer que o precursor dessa geração que tão bem se adaptou à Alemanha foi o Giovanni Elber, não?
Edu: Ele e depois o simpático Dunga né...
Carles: Teve também o Paulo Rink e o Kevin Kuranyi…
Edu: Paulo Sérgio e Jorginho, tetracampeões em 1994, Zé Roberto, hoje no Grêmio.
Carles: No time atual da Alemanha, o Marko Marin de origem bósnia, Mário Gomes, que dispensa apresentações quanto às origens (é metade espanhol), e o meio-campo do Real Madrid, Khedira e Özil, originários de famílias da Tunísia e da Turquia, respectivamente. Você acha que isso significa uma maior aceitação ao estrangeiro por parte do alemão ou é na base do “enquanto estiver fazendo um bom trabalho, nós aceitamos, depois já veremos”?
Edu: Não, não, acho que é uma nova faceta da Alemanha mesmo. A Copa de 2006 foi um marco para a abertura de um novo país, para sair daquela etapa em que ficou anestesiado por alguns anos na transição pós-queda do muro. A Alemanha pode não ter mudado em suas convicções político-econômicas e em sua pretensão de liderar ideologicamente a Europa, mas a sociedade alemã mudou bastante. Isso de globalizar a seleção é sinal claro de que a sociedade está mais receptiva. Os imigrantes são realidade no país, não havia mais condição de virar as costas para esse quadro social.
Carles: Naturalmente, os Özil, os Khedira, os Marin fazem parte da sociedade alemã, estão nos times de primeira linha, nas Universidades, nos escritórios e nas fábricas. E o caso de Deco, Liédson e Pepe na seleção lusa, são produtos também de uma conexão real e ancestral entre portugueses e brasileiros. Será que a situação quanto à aceitação é o mesma? Ou nunca houve rejeição?
Edu: Claro que houve rejeição, muito brasileiro sofreu demais em Portugal, jogador de futebol então nem se fale, principalmente os desconhecidos. Mas em escala muito menor do que em outras culturas completamente diferentes. Neste caso, sem a menor dúvida, a ancestralidade pesa bastante.
Carles: Provavelmente onde o Pepe é mais querido profissionalmente é dentro da seleção portuguesa.
Edu: Ah, certamente. A verdade é que o futebol foi um precursor da globalização. O que a gente vê hoje ocorria já há 30 anos, numa dimensão menor. Mas essa circulação vem de muito antes de a economia mundial entrar na era globalizada. Africanos nos países nórdicos, brasileiros e argentinos na Itália, na Espanha e em Portugal, os ex- colonizados da África invadindo Inglaterra e França. O futebol antecipou tudo isso.
Carles: Bom, o futebol facilitou a compreensão dessa integração, sobretudo para aquelas pessoas mais tradicionais e conservadoras, às que mais custa entender esse processo. Mas acho fundamental que cada vez mais os jogadores que fazem parte de seleções que não são as suas, de origem, tenham consciência da sua própria cultura, que a necessidade de aceitação não seja um pretexto para a imitação. Eu distinguiria integração de globalização.
Edu: De qualquer jeito, não há painel étnico, cultural e econômico mais diversificado do que o futebol. Veremos algo disso por aqui na Copa das Confederações e mais ainda no ano que vem.

5 comentários:

denise disse...

Edu, à época, a Copa também mostrava uma revolução na França, em 1998... no futebol e, imagino, um pouco também na população (torcida). pelo menos essa era a impressão, do que se via daqui.... e do que se viu lá de dentro?

Edu Carvalho disse...

Também teve um pouco de influência, mas a França já vinha mudando desde que começou a história do Euro, porque era um país que patrocinava a ideia de União Européia junto com a Alemanha e a Itália. Como estão na maior nação turística do mundo, os franceses foram meio obrigados a rever algumas velha posturas chauvinistas e tiveram que tragar melhor os estrangeiros. O futebol também ajudou...

Roteiros disse...

Bananas jogadas ao gramado são indícios de aumento da globalização, do racismo ou da safra de bananas? Pior ainda é quando algum estúpido lança um sinalizador contra a torcida adversária causando uma tragédia. Comportamentos da torcida e como isso influencia as equipes positiva e negativamente, organizadas, etc... Diferenças e semelhanças entre os 2 continentes. Sugestão para um próximo tema, abraços de um leitor assíduo.

Salvador disse...

Bananas jogadas ao gramado são indícios de aumento da globalização, do racismo ou da safra de bananas? Pior ainda é quando algum estúpido lança um sinalizador contra a torcida adversária causando uma tragédia. Comportamentos da torcida e como isso influencia as equipes positiva e negativamente, organizadas, etc... Diferenças e semelhanças entre os 2 continentes. Sugestão para um próximo tema, abraços de um leitor assíduo.

Carles Martí disse...

Boa sugestão, Salvador. Obrigado pela assiduidade. Um abraço.