sexta-feira, 1 de março de 2013

O som do purgatório e o não futebol


Carles: Não vi a partida do Corinthians pela Libertadores da América contra o Millonarios, mas fico imaginando a sensação que causava o silêncio e o eco do estádio vazio. Algo assim como o som do purgatório. Como foi realmente?
Edu: Foi exatamente isso. A mais completa visão do ‘não futebol’. E coroou uma semana repugnante em todos os sentidos. Se falamos outro dia da linha tênue entre isenção e descalabro, tivemos desde que o garoto foi morto em Oruro, na quarta-feira da semana passada, um show interminável de descalabro.
Carles: O episódio todo, desde a tragédia de Oruro até a liminar para que quatro torcedores pudessem assistir ao jogo de quarta-feira, parece-me uma sequência de absurdos e dúvidas sobre a moralidade da sociedade e não necessariamente sobre o mundo do futebol. Falou-se muito das torcidas organizadas, mas a reflexão deveria ser sobre a sua relação com as sociedades que cultuam a formação de bandos militarizados, a disputa e o predomínio da força. Não acho que o debate seja só em torno das torcidas organizadas, mas sim sobre a educação e a consciência. E relaciono tudo isso inclusive com o debate sobre o porte de armas nos EEUU que esteve a ponto de derrotar Obama.
Edu: É evidente que o debate não é frugal e episódico. Mas quem enxerga isso? Quem tem interesse em levantar uma bandeira sólida de cidadania para uma discussão desse porte? O fato é que a sequência de sandices, desde o crime propriamente, passando pela ressonância insana promovida mais uma vez pelos meios de comunicação e desembocando nas reações desproporcionais de quem comanda a encenação, são coisas que nivelam por baixo a todos os envolvidos. Fica difícil identificar quem presta nessa história. E aí, o problema em si, que vem de décadas e partiu da sociedade para contaminar o futebol, fica sublimado.
Carles: Sem querer discutir os detalhes mórbidos na Bolívia, à distância e ao ver as imagens, percebo uma premeditação ou uma coincidência quase inexplicável. No momento em que a torcida começa a desfraldar a bandeira parece haver uma sincronia com o disparo do sinalizador, como querendo acobertar os autores. Como se houvesse uma estratégia previamente estabelecida. Possivelmente sem a intenção de assassinar, mas com o risco evidente. Isso não é nem de longe a valentia que se procura propagar dentro desses grupos.
Edu: Pois é, Carlão, nesse ponto discordo com veemência de você, ao mesmo tempo em que entendo toda essa desconfiança. Essas pessoas que agem com violência grupal normalmente têm um padrão de irresponsabilidade incompatível com a convivência social minimamente civilizada. Eles fazem porque fazem. Investem nesse caos para tomar algumas atitudes selvagens. Obviamente, às vezes isso termina em crime. Acontece que é uma discussão - se foi ou não premeditado - que será alvo um processo criminal investigativo e, no final, quem for culpado que vá para a cadeia. Considero uma completa falta de bom senso fazer esse tipo de especulação, que, aliás, foi o que a imprensa e muitos dirigentes fizeram nestes dias. E fizeram por conta própria, sem ouvir autoridades, sem consultar quem está investigando. Virou uma batalha de 'achismos' extremamente perigosa quando falamos em grupos que são movidos a paixão. O resultado foi um tiroteio bizarro entre simpatizantes de um lado de outro, sem nenhum sentido, igualando todos num imenso delírio irresponsável e coletivo .
Carles: Não quis especular com a tragédia, mas sim tentar entender o que leva a esse tipo de violência, não absolutamente caótica. Sim, o riscos são maiores quando o comportamento é desgovernado, mas recuso-me a acreditar que tudo é obra do acaso e que não responde a um processo coberto de preconceitos, de sectarismos, como por exemplo o que desencadeou o assassinato do jovem Aitor Zabaleta, torcedor da Real Sociedad, pelas mãos de "ultras", de orientação neonazi e torcedores do Atlético de Madrid, às vésperas do jogo entre ambas equipes, pela copa do Rey de 1998. Obviamente o truculento autor daquele crime não tinha inteligência para planejar o crime, mas não foi por acaso que ele, defensor da "pátria espanhola" acabou, orgulhoso, com a vida de um "inimigo" independentista. O "erro" de Aitor foi desfilar com a camisa da Real Sociedad, do país basco.
Edu: Há tensões históricas bastante claras para os ultras de orientação neonazi partirem para cima dos torcedores bascos - há uma trajetória por trás desse confronto ideológico que ninguém pode contestar, embora não sirva como justificativa de violência. Mas não é a mesma ótica, com toda segurança. Por que razão torcedores do Corinthians sairiam daqui para matar um garoto que torce para o San Jose de Oruro? Que lógica política ou social haveria nessa insanidade? O Corinthians - como outros clubes brasileiros - fez sete jogos da última Libertadores com estádio lotado em São Paulo e outros sete em campos adversários. Não houve qualquer incidente grave. Qual é a lógica de ter algo premeditado em Oruro? A falta de lógica é justamente o que move um crime desses.
Carles: Sigo insistindo em que existem pontos de conexão entre ambos fatos. Quem sabe, a motivação não seja a mesma, inclusive pelas diferenças culturais ou de consciência política em cada um dos casos, mas no fundo, ambos se valem da cobertura de uma massa anônima para executar o que consideram sua forma de justiça. Quando atuam, imagino, consideram-se acima do bem e do mal, seja por uma disputa de fundo político ou violência aparentemente casual. A sensação de impunidade é possível que esteja relacionada com o fato de poder ser parte de um grupo forte e poderoso. Tudo isso se desvanece diante da realidade de ter matado um semelhante.
Edu: Já estamos nós também entrando na seara dos 'achismos'... Nessa confusão de opiniões, o que parece definitivo mesmo é o tema-âncora que levantamos lá no começo da conversa: está difícil encontrar uma forma de equacionar essas atuações grupais descontroladas sem mexer em alguns alicerces sociais ligados à formação pessoal dos indivíduos, aos processos educativos e à segurança cidadã. E o mais difícil é encontrar quem se proponha a enfrentar essa situação - governos, agentes sociais, meio acadêmico, sei lá quem mais.
Carles: Não são achismos, são evidências, repetição de procedimentos. Mas voltando à essência, está claro que a raiz está na educação, cujas deficiências, em última instância, nos levam a discutir a segurança cidadã com tanta insistência. Não é possível que mesmo o mais inapto governante seja inacapaz de associar o investimento em educação com a solução de muitos dos problemas sociais. Se é assim, qual é dúvida? Talvez nenhuma, a não ser convencer os donos da bola, os que ganham com a privatização e mercantilização dos serviços sociais essenciais. A maior prova está nas declarações do tal advogado que entrou com a liminar para poder assistir ao jogo de ontem. Travestido de libertário, dizia estar defendendo os direitos cidadãos, de consumidor. Quando são coisas absolutamente distintas. Os direitos cidadãos estão relacionados com o que você disse, a educação, a segurança e a integridade, não com o mercado.
Edu: O tal advogado foi só a ponta de lança da cambada que se julgou capaz de fazer análises acima do bem e do mal. Acho até que ele queria era mesmo seus minutinhos de fama ou pouco mais do que isso.
Carles: Claramente foi isso, se me permite nova especulação. Mas reflete a confusão de ideias.

3 comentários:

Salvador disse...

Pouca ou nenhuma diferença faz se o disparo foi acidental. Levar uma arma (porque é uma arma) pro estádio já é um crime. O problema é educação, claro, mas as organizadas acobertam esses desqualificados que acham que podem fazer o que quiserem em nome de uma suposta paixão por um clube, acobertados pela coletividade que caracteriza as organizadas.
Quanto aos da liminar, se não é um crime, acabam podendo prejudicarq o time tanto quanto os outros.

Carles Martí disse...

Se tanto a violência como o oportunismo de uns e outros torcedores, prejudicam o clube, é fato que desde a entidade deveriam ter assumido e debatido. O torcedor de futebol não deixa de ser um grupo social com um certo comportamento e com determinadas referências culturais, entre outras, as agremiações. Se agora a discussão é sobre o Corinthians e seus torcedores, em outros momentos, já foi sobre seus adversários diretos e, frequentemente é sobre os vizinhos de continente ou sobre hooligans europeus. É patente que o comportamento violento muitas vezes se fomenta desde os próprios clubes, desde determinadas facções que querem arrebatar ou consolidar o seu poder. A massa é, uma vez mais, instrumento de interesses e acaba tornando-se algo incontrolável o que acaba circunstancialmente prejudicando as próprias cores. Não é assim com aqueles que costumam utilizá-los como trampolim eleitoral.

Carles Martí disse...

A propósito: 98% da educação é pública na Finlândia:
http://www.youtube.com/watch?v=FbeoNm2rwb0