sábado, 9 de março de 2013

Fragmentos de numerologia

Carles: Lembra de quando o lateral direito era sempre o número 2 e o centroavante, o 9…?
Edu: Quando o futebol não era como a NBA, com aqueles números estapafúrdios. E os símbolos eram mais marcantes. Quem sabe hoje qual é o número do Beckham no PSG ou do Ronaldinho Gaúcho no Atlético Mineiro?
Carles: Imagine a felicidade da equipe de marketing que, de repente e por um capricho de alguém, teve que mudar tudo referente aos produtos CR9 a CR7. Claro, quando Cristiano Ronaldo chegou ao Real Madrid a camisa 7 tinha dono.
Edu: Raulzito.
Carles: Isso. E tem a célebre 8+1 do Ivan Zamorano na Inter de Milão para que o Ronaldo pudesse luzir a 9, exigência da marca esportiva que controlava a imagem do Fenômeno.
Edu: Isso mesmo, o Ronaldo chegou à Inter depois do chileno, usou a 10 na primeira temporada e, na segunda, passou a vestir a 9. Zamorano, que era muito amigo do ex-gordo, usou uma camisa com o número 8 e um '+ 1'  com o sinal de + bem pequeno. Para todos os efeitos era 81. Os próprios jogadores, até um bom tempo atrás, tinham essa afeição ao número. Era um resquício da infância e dos velhos símbolos. O 8 era o cara equilibrado, o sensato do time. O 5 funcionava como um esteio familiar, uma âncora. O 9 era o moleque, que tinha direito a ser irresponsável de vez em quando. E o 10.... bom, o 10 nem precisa dizer.
Carles: O peso da camisa 10 vigora?
Edu: Em alguns lugares, como o Brasil, ainda vigora, sim. Ainda temos grande concorrência pela 10. Na Argentina também. Messi, que começou com outra camisa, assumiu a 10 depois da saída do Gaúcho do Barça. Mas em outros lugares o peso é diferente. Na Seleção Espanhola, quem é o 10?
Carles: Mas foi alguém sem perfil de 10 que aceitou assumir o peso da sucessão de Dieguito na ‘albiceleste’, o tosco Cholo Simeone. "Con un par!"
Edu: Mas, logo, isso foi retomado porque o apelo simbólico falou mais alto. E tem também que as entressafras acontecem e o Cholo, como tem aquela personalidade um tanto espaçosa, se fez de dono da 10 em um período de vacas magras. O Brasil mesmo já disputou uma Copa do Mundo (em 90) com o Silas ostentando a 10. Sim, o Silas, aquele que passava boa parte do tempo rezando. Boa gente, bom rapaz, mas com a 10 não dá né.
Carles: Curioso é que, por aqui, a numeração segue os jogadores lá por onde eles vão, por questões comerciais. Apesar disso, ato falho, os narradores seguem usando expressões do tipo: "apareció libre por el carril del 8", referindo-se ao corredor ocupado pelo antigo meia direita, por exemplo.
Edu: A força da tradição.
Carles: E da emoção… A morte de dois jogadores da Liga desencadeou homenagens relacionadas com o número das suas camisetas. No minuto 16 de cada jogo do Sevilha, a torcida começa a aplaudir em uníssono para recordar o ‘dorsal’ do seu lateral esquerdo Antonio Puerta, morto em 2007. O Espanyol de Barcelona batizou o portão de acesso de número 21 do seu estádio com o nome do seu capitão Dani Jarque, que morreu em 2009 durante a pré-temporada. No Sevilha, o número 16 está sempre reservado para um jovem jogador da base e o Espanyol decidiu retirar a camisa 21.
Edu: Então, os significados variam de país para país, se bem que há influências históricas. Obviamente que os ingleses, que têm um certo carinho pelo número 10, são influenciados pela “Era Pelé”, e não poderia ser diferente porque sempre o Rei foi muito cultuado por ali, ainda mais por ser a contraface do Maradona, que os britânicos odeiam. Mas os alemães nem tanto. O cérebro do time alemão, Özil, joga com a 8. E os italianos também não são tão fissurados pela 10. O jogador mais 'brasileiro' da história da Itália, Roberto Baggio, jogou muito tempo com a 8, apesar de ter usado também a 7 e a 10.
Carles: Falando em seleções, a Argentina de Videla, em 78, acabou distribuindo a numeração das camisas seguindo a ordem alfabética dos sobrenomes. O goleiro Pato Fillol jogou com a 5, mas, coincidência ou não, Kempes recebeu a 10, número que eternizou na memória dos valencianistas, apesar de ter começado com a 9 no clube 'che'. E Osvaldo Ardiles, se não me falha a memória, era o 2. Talvez o mais chocante tenha sido ver que os  goleiros deixaram de ser obrigatoriamente o 1, como Vitor Baia que vestia a 99.
Edu: E o goleiro da Laranja Mecânica, em 74? Era o 8, Jan Jongbloed.
Carles: Acho que aquela numeração da Holanda fazia parte da estratégia de rotação e despiste da marcação. Ou é muita paranoia?
Edu: Pode até ser. Se bem que aquele time era todo original, heterodoxo, e os jogadores, muito desencanados. Acho que não tinham essa preocupação. Exceto o Cruyff, que escolheu uma camisa que nunca emplacou pelos lados de cá, a número 14.
Carles: No Barça, existe uma simbologia de liderança e organização relacionada com a camiseta número 4 de Pep Guardiola, só que hoje quem usa é o seu amigo Francesc Fàbregas.
Edu: Que, aliás, é o 10 da Roja... Sem mais comentários.
Carles: A 10 caiu no colo dele, posso garantir. Na Roja não tem tanta importância. A 7 é mais importante.
Edu: Acredito. Mas é, de longe, a maior ofensa à 10 desde Silas.

Um comentário:

Carles Martí disse...

Mais numerologia. Na Alemanha, Rummenigge era 11, Beckenbauer, o 5 e Mathäus, o 10. Se a miopía não tivesse permitido que Pelé disputasse a Copa de 1970, o 8 de Gérson ou o 11 de Rivelino teriam arrebatado algo de tradição ao número 10 no Brasil? O formato do número 7, semelhante a uma seta está associado à velocidade? Histórias sobre a sorte ou o azar do 13…