domingo, 3 de março de 2013

...E o Barça espanou

Edu: Duas derrotas seguidas para o maior inimigo pela primeira vez em cinco anos, uma inusitada falta de personalidade, sem nada daquele volume arrasador de jogo, sem Messi, nem ninguém. Há algo estranho no reino 'culé'...
Carles: Desde Chamartín ouvem-se os gritos de "Cambio de ciclo!!!". É possível, tudo chega ao fim, regenera-se. É uma das possibilidades, mas também pode ser que o fatídico mês do Barça de todas as temporadas, fevereiro, tenha se atrasado, a exemplo do frio que só chegou em março por aqui. Há outra mais. Dizem que "se o Xavi espirra, o Barça é que pega o resfriado". Xavi não anda bem fisicamente e seu sucessor está sendo preparado, Thiago Alcântara, estigmatizado pelas constantes perdas de bolas no meio de campo. Em uma entrevista, Xavi disse: “Não sei driblar, não sou veloz, por isso faço tudo com simplicidade.” Uma lição de humildade, último degrau que Thiago deve subir para um dia ser Xavi, talvez. E o Barça ser o Barça, mesmo sem Xavi.
Edu: Sempre é preciso justificar - Xavi, a fase, o mês, fim de ciclo. Mas o fato é que nem o Xavi é toda essa liderança, embora seja uma referência técnica, nem o time tem toda essa personalidade. E está sentindo a falta de um treinador, um paizão. Isso me parece evidente. Enquanto o Madrid se descolou de seu tirano técnico e cresceu quando o time começou a praticar a tal autogestão, o Barça afundou porque está sem Tito Vilanova. É compreensível, até.
Carles: Claro, Xavi é o grande gestor de um jogo altamente disciplinado, que não burocrático. Cada um conhece sua função, mas a direção é imprescindível. Tito já era o grande diretor, mesmo quando Pep estava. Guardiola sempre foi mais carismático e um grande estrategista, mas Tito sempre dirigiu o grupo taticamente. Claro que faz falta. Não será o católico Roura seu substituto, isso é claro. Suas ideias não são as do Barça inovador. E eu não usaria a expressão justificar, mas explicar. Tudo tem a sua explicação.
Edu: O pior é que dá a impressão de o Barça não ter se preparado para as horas baixas - e elas são inevitáveis no futebol. Nessas horas é que os problemas se potencializam, como o desequilíbrio entre defesa e ataque. O time que nunca precisou se defender, quando tem essa necessidade num momento vulnerável, fracassa. Falta jogo coletivo de defesa e individualmente há muitas falhas por ali, que comprometem um jogo nesse nível. Aí, então, quando o ataque avassalador não trabalha, o time todo sucumbe. Já tinha sido assim contra o Milan, que não é nenhum primor tático e engoliu o Barça.
Carles: A queda é a maior das provas. Ninguém parece preparado, mas já veremos, tempo ao tempo. Uma eventual desclassificação frente ao Milan será um golpe duro, pior ainda se o arquiinimigo conseguir suplantar o Manchester. Mas o pior de tudo será se conseguir perder a Liga. O grande beneficiado dos Barça-Madrid, afinal, pode ser o Atlético de Simeone, que, se conseguir se livrar do seu último complexo na final da Copa e, por outro lado, aproveitar a hesitação do Barça, poderia ser a grande surpresa, o grande vencedor da temporada. Um ou dois triunfos poderiam inclusive ajudar a manter o ídolo Falcão no clube.
Edu: Perder a Liga é virtualmente impossível, você sabe disso, por mais que o Atlético pudesse significar um pouco de oxigênio para essa bipolaridade crônica no futebol espanhol. Mas que a temporada vai significar uma virada no atual modelo Barça acho que já não tem mais dúvida. Nem sei se chega a ser 'cambio de ciclo', mas no ano que vem será preciso rever alguns conceitos e, o principal, mudar jogadores. E não só os veteranos. Por exemplo: Thiago Alcântara não é jogador para liderar a renovação do Barça.
Carles: Não se pede que Thiago lidere, mas que seja o gerente de produção, como Xavi. O problema é que ele traz no sangue a prepotência da qualidade ancestral, mesmo que na carteira de identidade dele diga que sua nacionalidade é espanhola. Se aprender a usar esse talento com inteligência pode ser muito importante para a história ‘culé’. Caso contrário, se preferir seguir tentando trocar a possibilidade de longevidade por segundos de exuberância e firulas, realmente vai ficar em nada. E pior para o Barça.
Edu: Mas há mais peças espanadas, né Carlão? O miolo da defesa compromete, os laterais são instáveis. Villa e Alexis devem sair. Teremos fatalmente um novo design por aí. Quem gosta de futebol sempre tem uma expectativa legal pelo Barça.
Carles: Quem gosta de futebol sabe que jogar como o Barça sempre vai comprometer o miolo de zaga e não o contrário. É um esquema de alta exposição defensiva quando não se tem a posse no meio de campo (sim, sempre o meio de campo, por que aí radica a solução e o problema de tudo). Os zagueiros, nos melhores tempos do Barça, tinham que estar preparados para fazer diagonais perfeitas e em alta velocidade. O Madrid ganhou nesta semana no Camp Nou jogando futebol americano, lançando parábolas por cima do bloco maciço 'blaugrana'. Faltaram pernas principalmente para o velho Pujol. Ou combatividade no meio para não dar a liberdade que permitiu os chutões por cima das linhas de cobertura.
Edu: Não acho que foi bem assim, tanto no meio de semana quanto ontem. O Real Madrid adora as parábolas, mas não se pode negar que tem jogadores de alta qualidade. E ontem, com um time misto, chegou a dominar o meio de campo em muitos momentos. Mas nunca vou te convencer disso, já me conformei. Só sei que, aqui, a maioria desfruta mesmo é com o Barça, mas aquele Barça energético, criativo, fatal e, como vocês dizem, cheio de 'frescor'. Não foi o que vimos nestes últimos jogos.
Carles: Não nego a qualidade de muitos dos jogadores do Madrid, Cristiano, Marcelo em forma, Özil, Benzema com a cabeça no lugar, Varane, que será provavelmente o melhor zagueiro do mundo (cairia como uma luva no Barça), Casillas... Só acho que poderia ser uma equipe mais ambiciosa e inovar em vez de utilizar esquemas rançosos, com os quais não conseguimos desfrutar tanto, mas que muitas vezes acabam vencendo o jogo 'fresco'. Ontem o meio de campo do Madrid acabou o jogo com Khedira, Modric e Pepe!!!! Ou seja, uma linha de zagueirões.
Edu: Khedira e Modric zagueiros? Ok, Carlão. Bom domingo...
Carles: Não me diga que você pensou neles ao falar em qualidade? Ah! esqueci que para você o grosso é o Sérgio Busquets.
Edu: Qualquer dia desses podemos discutir as diferenças entre Busquets e Khedira.
Carles: Quando quiser, mas temo que é daquelas questões irreconciliáveis.
Edu: Bom domingo.
Carles: Bom passeio.

2 comentários:

Antonio Salles disse...

Não dá para ganhar tudo e sempre. Quando eu era pequeno havia um corolário:"não é todo dia que é dia santo".

Carles Martí disse...

"Santa" verdade, Antonio. Abraço.