sexta-feira, 8 de março de 2013

O humor impossível


Edu: Você acha que a gente consegue falar da falta de humor no futebol sem fazer nenhum discurso marxista de que na mais valia não há espaço para gente bem humorada?
Carles: Podemos tentar. Na verdade tenho outra visão menos politizada do mau humor no futebol.
Edu: Então, melhor, não temos a mesma visão. Porque eu acho que o primeiro motivo de tanto mau humor é o sistema de relações que leva à pressão de mercado. E à pressão da mídia, que também é mercado.
Carles: Em última instância, o motivo é esse mesmo, mas podemos falar de aspectos mais superficiais e não menos importantes. Impossível mesmo é referir-se ao mau humor sem falar de Mourinho nem de Felipão. E, claro, do Dunga tampouco.
Edu: Nem de Ferguson. E os jogadores, então? Quando você viu pela última vez Messi, Iniesta e Cristiano sorrindo? Fazendo um gol não vale.
Carles: Iniesta sorri dentro das suas possibilidades. Cristiano mais que Messi. Porém, Messi teve a infância roubada. Fica difícil sorrir para isso.
Edu: Então você defende a tese de que o cara que teve uma infância anormal fique purgando isso para o resto da vida? Mesmo ganhando 2 milhões de euros todo mês para fazer o que gosta?
Carles: Não, o Messi não teve uma infância anormal, ele deixou de tê-la, assinou um contrato de gente grande com o Barça aos 14 anos de idade (lá vem o mercado!). O famoso contrato assinado num guardanapo, diante do Carles Rexach.
Edu: Sim, entendi. Mas isso é motivo para perder o humor pelo resto da vida?
Carles: Não deveria, depende da maturidade emocional de cada um. A pressão sobre Xavi Hernández está longe da que sofre o Messi, mas temos que reconhecer que é uma cara na plenitude da maturidade emocional. Contrato milionário não é desculpa, não. Tem muita gente com salário mínimo e com pressão muito maior.
Edu: Um contrato milionário para o cara fazer o que gosta. Que mais ele quer na vida?
Carles: Exatamente, então você concorda: é uma questão da forma como essas circunstâncias se assimilam.
Edu: Temos aí então que o jogador de futebol, que é jovem quase sempre, é por princípio um imaturo emocional, o que não deixa de ser um preconceito bastante básico. Isso porque todos são mau humorados, com as devidas exceções, muitas das quais viram quase caricatura. E bom humor, claro, não é fazer piada. Mesmo os jogadores brasileiros, que têm fama de alegrões, estão num mau humor só - até porque tem gente que proíbe os caras de dançar quando fazem um gol.
Carles: Qual é o preconceito? Não entendi. Falei em falta de maturidade emocional que nada tem a ver com a idade e sim com a estruturação afetiva, que tem muito que ver com a família e amizades próximas.
Edu: O preconceito de que todo jogador de futebol, ou quase todos, é um imaturo emocional. Porque todos, ou quase todos, tem o mau humor como característica, defesa, reação contra a mídia, contra o mercado, sei lá mais contra o quê. E apoio familiar ou desestruturação familiar é da vida, de qualquer um de nós, não é coisa restrita a um jogador de futebol só porque tem fama.
Carles: A deles é visível, está na mídia, mas ninguém está isento. E eu discordo quanto à sua generalização. Tem muito jogador que demonstra seu prazer de jogar e não exala mau humor. Agora, o aparente mau humor pode ser resultado de uma postura defensiva. Existe a visão desde os clubes de que a imprensa está sempre em busca de carniça e isso coloca suas estrelas em guarda permanente, não acha?
Edu: Não estou falando aqui de prazer de jogar, coisa que, aliás, Messi tem até demais, basicamente todo jogador tem. Trata-se de uma profissão que o cara abraça porque gosta. Estou falando de bom humor como comportamento pessoal, de bom astral, de ausência de crispação, de leveza de espírito. É impossível, por causa da pressão? Pode ser. Mas aí voltamos à dúvida do início. Por que há tanto mau humor no futebol?
Carles: Sem analisar o modelo social fica difícil seguir encontrando possíveis respostas. Mas prefiro insistir em que essa não é a minha impressão, pelo menos de forma generalizada. A sensação da privacidade invadida, em geral diretamente proporcional à fama, é algo incômodo. Por outro lado, os grandes clubes poderiam rentabilizar os seus psicólogos especializados em esporte que, ao contrário de mostrar a alegria de poder desfrutar dessa oportunidade única que a vida lhes deu, procuram maximizar a necessidade de competir, criando super egos.
Edu: Pensei que pudesse ser uma questão humana, digo, de relações humanas. É impossível ter bom humor com Mourinho ou Ferguson como chefes, ou o próprio Felipão quando está com a macaca. Há os colegas chatos, a imprensa 'mala', as obrigações formais, a rotina pentelha de celebridade e, em meio a tudo isso, treinos, concentração e jogos tensos. É tudo muito pesado para o cara que é jovem e saudável, com hormônios fervilhantes e pedindo liberdade, ser um modelo de descontração e bom senso. É carga emocional? Claro que é, e muito mais. Mas então, Carlão, no fim das contas, o principal motivo será aquele mesmo que temíamos ao começar a conversa: o poder do mercado. O negócio fala mais alto. Não vejo outra explicação.
Carles: É uma questão humana. Só que pouco ou nada relevante para os gestores do negócio.

3 comentários:

denise disse...

e o muricy? deve entrar aí na lista dos mal-humorados...
e o pelé? acho super bem-humorado....! (lá, do jeito dele... pelo menos parece) por que seria, então?... porque entra na categoria gênio até nisso?

Edu disse...

Muito bem lembrado, Denise.
O Muricy nem merece estar numa prosaica lista - tem um espaço só dele na trajetória dos maiores ranzinzas do século 21 em todas as áreas do conhecimento humano.

Carles Martí disse...

E o Louis van Gaal?
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