quarta-feira, 27 de março de 2013

Pelo caminho das pedras


Edu: Aquele medo que tínhamos de que os pontas autênticos tinham sumido do futebol, principalmente na década de 1990, com a evolução dos sistemas de marcação que privilegiavam a centralização do jogo, parece que foi superado. Que grande time hoje não tem pontas de verdade?
Carles: Chegar ao fundo com velocidade, evitando adversários e fazer cruzamentos para que os atacantes possam receber de frente para o gol é virtude exclusiva de alguns futebolistas e possivelmente continuou presente todo o tempo. O que felizmente vai acabando no futebol e no resto das coisas é a especialização, a antítese da ambição.
Edu: Talvez seja essa a razão de a maioria dos jogadores, hoje, não se definirem exatamente como 'pontas-direitas' ou ‘pontas-esquerdas’ e sim como atacantes que jogam pelos lados do campo.
Carles: Pensando bem,  ter duas peças (o ponta-direita e o ponta-esquerda) entre um total de dez (os goleiros ainda não estão aptos, enquanto Guardiola não decidir) para fazer uma única jogada com leves variações, durante 90 minutos, era mesmo um desperdício.
Edu: O que não poderia ter acontecido - e aconteceu por um bom tempo – foi o fato de se abrir mão incondicionalmente do ponta, que era exatamente taxado de 'especialista' no pior sentido. Embora o ponta especialista ainda exista aos montes. Tem um caso claríssimo na 'Roja', o sevilhista Jesus Navas. E temos aqui uma das grandes promessas do futebol brasileiro, Bernard, do Atlético Mineiro. São extremos de ofício, que às vezes entram em diagonal, mas podem tranquilamente ser chamados de ‘pontas à moda antiga’.
Carles: Não me vêm à cabeça melhores exemplos. Modélicos da nova era do ponta mas que, para revigorar a posição, foram obrigados a oferecer mais aos seus treinadores e equipes. Vi o Bernard dar boas assistências desde variadas zonas do campo e o Navas jogar de interior, essa posição meio campista tão daqui, com considerável competência e qualidade. E se o tema é desperdício, seria bastante inútil desaproveitar a vocação deles para desempenhar uma função clássica e romântica numa época em que ganha mais quem oferece uma maior variação de jogo. Impossível falar de pontas autênticos e esquecer dois nomes: um pela direita, o maior de todos, praticamente inventor da posição, o Mané. Consagrado como driblador veloz e cruzador, mas quem o viu jogar lembra que quando fez outras funções mostrou o porquê de continuar sendo considerado um dos grandes da história do futebol. Pela esquerda, Jonas Eduardo Américo, o Edu do Santos, fantástico, sensacional, mesmo torcendo por outras cores, eu esperava ansioso que a bola chegasse naquele ponto do campo. Porém, convenhamos: era o típico monocórdio, não?
Edu: Era monocórdio e ganhava jogos. Nos casos de Edu e Mané, ganhavam campeonatos. O importante que considero na figura dos pontas é a importância fundamental de ocupar um pedaço do campo que costuma ser vital em partidas difíceis, com poucas chances de gol, envolvendo times com esquemas mesquinhos de jogo. Quantas vezes uma jogada prosaica de linha de fundo, com cruzamento rasteiro para trás, não decidiu um jogo complicado? E aí nem depende dos nomes, qualquer um pode fazer. Um técnico que se preze nunca pode deixar de incluir esse tipo de lance em seu cardápio de prioridades. Seria burrice.
Carles: Burrice recorrente, diga-se de passagem, porque quem tem, tem medo. Grande parte dos treinadores prefere assegurar o emprego, protegendo determinadas zonas, a permitir que o seu time tenha essa profundidade essencial.
Edu: Pois então que os técnicos brasileiros se liguem, meu amigo. Felipão especialmente. Há muito que o Brasil vive de laterais ocupando as pontas - desde os bons tempos de Cafu e Roberto Carlos. Por outro lado, mesmo times que não têm pontas de ofício, como Corinthians e Fluminense, sempre situam atacantes por um ou pelos dois lados. E tem dado certo. É muito básico para que os treinadores ignorem essa possibilidade.
Carles: E é bom lembrar esses treinadores (apesar de que eles, como gestores de um grupo humano, deveriam saber disso melhor que ninguém) que abrir mão da especialização deve ser compensada pela multifuncionalidade. No caso, altamente recomendável, de não adotar peças fixas por essa zona, a ocupação deve ser ora pelos atacantes, ora pelos meio campistas, ora pelos laterais, sob o risco de cobrir a cabeça do santo para descobrir os pés ou, na melhor das hipóteses, perder o fator surpresa. O certo é que, cada vez mais, reforça-se a ideia de que pode até não ter ponta tradicional, mas técnico inteligente é, cada vez mais, imprescindível.

2 comentários:

Antonio Salles disse...

Só um adendo: os amigos não mencionaram Jairzinho, um dos mais emblemáticos ponteiros "híbridos" do futebol no Brasil. E poucos perceberam, até agora, que Lucas carrega características bem parecidas: arranque, drible de corpo em velocidade e com a bola adiantada,corte para os dois lados e chute forte cruzado. Só falta levantar mais a cabeça para ler melhor o jogo.
Aqui a monocultura Neymar é tosca e impede de ver outros talentos em formação e, possivelmente, mais eficientes taticamente.

Carles Martí disse...

Muito bem lembrado, Antonio. Somemos, pois, mais esses dois nomes à legião de marginais, exemplares chegados desde as margens do planeta futebol.