terça-feira, 26 de março de 2013

Boleiros comentaristas: que medo!


Edu: Michael Robinson, que lembro ter sido um atacante meio tosco, mas ídolo no Osasuna (e antes no Liverpool), até que fazia algumas observações táticas interessantes como comentarista do Canal+. Ele continua comentando?
Carles: Sim, continua no Plus e também na Cadena Ser. Tenho minhas restrições, mas prefiro decifrar o castelhano dele a ouvir as observações do Casão ao lado do Galvão.
Edu: Antes o maior problema nosso fosse o Casagrande...
Carles: Mas é uma pena que nada nem ninguém funcione ao lado do Galvão Bueno. Por aqui, temos as aparições recentes do Kiko Narváez e Santiago Cañizares, entre outros. Pegou a moda do comentarista boleiro, nem sempre  a melhor solução.
Edu: Julio Salinas saiu de cena?
Carles: O Salinas ressurge das cinzas em raras mesas redondas, pós-jogo, mas é pouco frequente, não faz falta, para dizer a verdade.
Edu: Parece que não é moda somente por aqui. A emissora oficial do esporte norte-americano, ESPN, tem mais atletas do que jornalistas comentando. O maior problema não é o reducionismo corporativista de dizer que um jogador de futebol, teoricamente despreparado, está tomando o lugar de um jornalista. Mesmo porque o fato de ser jornalista não é garantia nenhuma de capacidade de análise ou de interpretação do jogo. O problema mesmo é até que ponto esses ex-jogadores acrescentam algo a uma transmissão, seja tecnicamente, seja como atração televisiva pura e simples.
Carles: A maioria não acrescenta nada. A presença deles responde à tática midiática de que alguém, ex-jogador de determinado clube e claramente parcial, diga o que o torcedor gostaria de dizer. Na Televisión Española, emissora estatal, costumam escalar um ex do Madrid e outro do Barça para comentar. Dependendo do andamento da partida, vira bate boca de botequim, que só me causa vergonha alheia. Em jogadas visíveis e claras, repetidas até a exaustão pelas numerosas câmeras para quem está assistindo pela televisão, os tais comentaristas-torcedores chegam ao ridículo de negar a evidência quando é contra o seu clube.
Edu: Episódios de vergonha alheia são recorrentes nesses casos. Vejo caras que efetivamente fizeram história no futebol brasileiro, como Neto, Muller, Careca e muitos, em situações que beiram o limite do bizarro, uns porque não conseguem articular, não têm repertório para construir uma ideia lógica, nem vocabulário suficiente, outros porque ficam amarrados pelas necessidades das empresas que estão servindo. Mas o curioso é que a febre se espalhou de tal forma que, hoje, não há emissora que não inclua um ex-jogador em seu menu. E não sei se as emissoras fazem alguma pesquisa junto aos seus telespectadores para detectar essa necessidade. Por isso te digo: Casagrande ainda é um que diz algumas coisas minimamente interessantes, conhece um pouco sobre tática e não tem aquela cosmética global, como o Caio Ribeiro, por exemplo, com sua irritante obviedade politicamente correta. Perto dos invertebrados, Casão é um gênio.
Carles: Na verdade, reclamei do Casão ao lado do Galvão Bueno. Tenho a impressão que ele muda, não por medo nem por nada do estilo, mas sabe que um bate boca com o velhão só traz prejuízo e pode incluí-lo numa situação ridícula, frequentes na vida do narrador. É só uma impressão, não tenho acompanhado ultimamente as transmissões da Globo.
Edu: Tem razão. Ao lado do cacique sempre é perigoso tomar uma traulitada ao vivo..
Carles: Neto e Muller com a palavra, você disse? Que medo!!!!
Edu: Uma das explicações é obviamente financeira. Muitos desses caras usam as amizades que têm na mídia para descolar um bico e ganhar uns trocados em cima do antigo prestígio (??). Estão na deles, não entro nesse mérito. E alguns trazem audiência, como é o caso do Neto. Mas muitos deles só justificariam um microfone nas mãos ou um blog se tivessem algo a declarar. Ou então, como ressaltou uma vez o velho Robinson, em uma entrevista ao John Carlin: 'Sou bem melhor como comentarista do que fui como jogador de futebol'. Aí se justifica. Só que estamos longe de ter um Robinson por aqui. Ou um Gary Lineker, com tem a BBC.
Carles: Grande Lineker! Também não seria difícil para o Robinson fazer qualquer coisa melhor do que ser o jogador que foi. Na verdade, fiquei um pouco cabreiro com ele depois de saber como trata os colaboradores quando a luz vermelhinha da câmera se apaga, mas você tem razão que ele dá uma certa elegância à transmissão. A opção dos dirigentes dos meios de comunicação é mesmo deixar a telinha o mais próximo possível de um galinheiro. Será que não tem volta nessa história? Qual a chance de alguém querer se diferenciar da concorrência pela qualidade?
Edu: Good question, como diria o próprio Robinson.

Um comentário:

Antonio Salles disse...

Excelente a abordagem de vocês. Concordo com quase tudo. O Casagrande sabe ler e contar o jogo, apesar de gaguejar. Caio é polido, mas não expressa opinião e que, principalmente, nenhum comentarista será ótimo ao lado de Galvão Bueno. Eu assisto aos jogos pelo Sportv para não aguentar Galvão, um narrador que não entende nada de técnica e se mete a falar de tudo. Típico da monocultura do Brasil. O Casagrande seria bem melhor se não tivesse ficado doente e não tivesse medo de chefe pernóstico e mal educado.
O Neto consegue ser insuportável. É melhor ouvir conversa de boteco do que piadas sem graça de Neto e Milton. É uma pena, porque o Luciano é bom.
Quanto ao Muller, eu discordo parcialmente porque eu vejo Sportv. Ele enxerga o jogo e o desenho tático como poucos, mas é limitado em expressão. O melhor sinal que ele tem qualidade é que foi considerado o pior em uma pesquisa.
Para mim, os melhores boleiros comentaristas eram Tostão e Raul Plasman. Ambos desapareceram. Vocês sabem onde andam ?