sexta-feira, 26 de abril de 2013

A Seleção e o vírus da prepotência


Carles: Desta vez não pude ver o time do Felipão. O amistoso contra o Chile teve tão pouca repercussão, também pela importância das semifinais da Champions League, que fiquei sabendo já muito tarde. Como foi? Li que mais da mesma coisa, não é? Vaias incluídas e ‘olé’ para o jogo do adversário…
Edu: Não por acaso fizemos aquele post, se não me engano com o título 'Nada que não possa ficar ainda pior'. Um desastre completo. Nem podem dizer que não houve apoio do torcedor de Minas. O clima era muito bom no início do jogo, mas foi impressionante com tudo foi se desfazendo. A reação não poderia ser outra ao final.
Carles: Como disse, não vi o jogo mas costuma suceder que, quando um jogo desses vai de melhor a pior, é sintoma de que internamente está se sentindo a pressão, a necessidade premente de mostrar resultados. Parece óbvio, mas é que muitas vezes não tenho certeza de que exista consciência por parte do Felipão das urgências, das necessidades de mudança. Talvez ele até saiba, mas seja totalmente incapaz de, ao menos, tentar uma reviravolta. Só teimosia não é, estou certo.
Edu: Só se prepotência e autoritarismo forem formas mais agudas de teimosia. Tratava-se de um amistoso contra um time remendado do Chile, com três ou quatro titulares, assim como o Brasil, que jogou só com os caras que atuam aqui, sem os 'europeus'. Mas a Comissão Técnica transformou esse último teste antes da convocação final para a Copa das Confederações em uma guerra pelas últimas vagas. Tentaram, com isso, motivar os caras além da conta. Uma postura deplorável. E o resultado foi exatamente o oposto, menos pelo empate em 2 a 2, e mais pela absoluta apatia dos jogadores, que não são idiotas e não caíram na esparrela de Felipão e sua turma.
Carles: Pois é, teve pressão adicional, como imaginava. Mas deu para reconhecer uma cara no time? Não me refiro a uma fisionomia que possa ser estimulante para os apreciadores do bom futebol. Pelo menos, existe a sensação de um projeto, mesmo que arcaico?
Edu: Não, não e não. Sem projeto, sem cara, total falta de fisionomia tática. A rigor, não se esperava outra coisa, vindo de quem vem. Mas, fosse um cara mais lúcido (e, por isso, um tantinho mais humilde), já que não há tempo, o lógico seria manter a base tática do Mano Menezes.
Carles: Mas teve Neymar e Ronaldinho. Nem faz tanto tempo, se aqui na Europa se anunciasse qualquer partida com Ronaldinho e Neymar no mesmo time, eu não acharia estranho que muitos dos nossos amigos "aficionados sin fronteras" fizessem de tudo para estar na arquibancada. Se me perguntarem, o que eu digo, ‘vai, vale a pena’ ou quem sabe quando não for um simples amistoso?
Edu: Neymar foi o cara mais vaiado em campo. Isso basta ou quer mais? E Ronaldinho só não foi mais vaiado porque os torcedores do Atlético ocuparam mais da metade do estádio, já que o jogo foi em Belo Horizonte. Além disso, o dentuço pegou pouquíssimo na bola, teve aquela costumeira participação invertebrada, foi o ilustre ausente sempre.
Carles: O Bernard, jogador que descobri no ano passado quando estive no Brasil - e gostei muito! - companheiro dele no Galo tem entrado no time ou pelo menos nas convocações?
Edu: Ele sofreu uma lesão grave há algumas semanas e não teve chances ainda. Mas tenho minhas dúvidas se o Felipão vai levar um jogador 'baixinho' e deixar de fora algum de seus mastodontes. A verdade é que vivemos uma espiral descendente, Carlão. O fato de as coisas darem errado alimenta a nefasta postura da Comissão Técnica de sempre responsabilizar quem ‘não entende de futebol’ e por isso faz críticas. Ou seja, a imprensa. Só que, neste caso, a imprensa representa o resto dos mortais, entre os quais os 50 mil que estiveram no jogo do Mineirão. Logo após o jogo, aliás, Felipão abandonou a entrevista coletiva ao ser perguntado se uma campanha ruim na Copa das Confederações poderia provocar sua saída. Que esperar de um cara desses?
Carles: Nunca esperei muita coisa, mesmo, mas acho que os anos e a adoção de uma postura defensiva permanente podem inclusive piorar o seu trabalho, se fosse possível. Por muitos anos, aguentamos o Javier Clemente à frente da seleção espanhola. Dono de ideias retrógradas quanto ao futebol e também pródigo em realizar entrevistas coletivas históricas. Sempre foi um poço de arrogância, mas pelo menos era divertido, mesmo quando esculachava todo ser vivente que se lhe atravessava pela frente. Pasmem, a evolução se deu com a chegada de outro técnico nem tão acessível, nem paradigma de modernidade, Luis Aragonés. À frente da seleção, Luis pareceu sofrer alguma convulsão interna e apostar por um jogo moderno e dinâmico, algo de que nunca dera nem ao menos sinais em seus trabalhos anteriores. Quem sabe tem uma luz no fim do túnel…
Edu: Não vejo essa possibilidade de upgrade no gaúcho, nem de longe. Ao contrário, quanto mais o torniquete aperta mais sectário ele fica, enclausurado em suas poucas e pobres convicções esportivas. E tem o agravante da postura. Acho que é um vírus da arrogância e da prepotência que assola os profissionais do futebol que têm como representante o tal de Jorge Mendes. Convivemos agora com o 'vírus Mendes'.
Carles: E nem pela via do auxiliar existe muita esperança, suponho. Porque no caso do Aragonés, chamado o ‘sábio de Hortaleza’ e sua repentina transformação, eu tenho uma particular teoria. O assistente na seleção foi José Armando Ufarte Ventoso, um ex-jogador de dupla nacionalidade espanhola e brasileira, de passado como jogador do Atlético de Madrid e Racing de Santander de 1964 a 1976 e que, antes, entre 1958 e 1964, ainda muito jovem, tinha sido jogador do Flamengo e Corinthians. Coisa rara, nessa ordem, talvez inédita! Esteve a ponto de ser titular da Seleção Brasileira e depois jogou na “Roja”. Figura discreta, treinador das seleções de base, mas com visão distinta e preferência por um futebol vistoso. Acredito que teve muito a ver com a mudança do velho Aragonés ao ganhador da Eurocopa 2008. Sempre passou inadvertido pelos meios, mas é possível que tenha sido uma peça chave na transformação do futebol espanhol. É só uma teoria pessoal.
Edu: Os auxiliares diretos do Felipão comungam com a visão dele há anos, a cada churrasco familiar. E o outro que tem uma hierarquia um pouco superior, Parreira, é praticamente um diplomata do futebol, um cara de 70 anos que não está aí para criar caso. Precisa dizer mais?
Carles: Em 2008, quando ganharam a Eurocopa, o primeiro título desta fase importante o futebol espanhol, Ufarte tinha 67 anos e Luis, 70. Nunca é tarde para mudar. Basta um pouquinho de humildade e vontade.
Edu: Louvo seu otimismo. Quer dar uma palestra por aqui?
Carles: Otimismo é meu segundo sobrenome. Só que senso crítico é meu apelido, desde criancinha. Quando quiser.

3 comentários:

Antonio Salles disse...

Gentlemen, permitam-me um bedelho.
É bom lembrar que a história do futebol é marcada por ciclos e todos os principais players passam por altos e baixos. Não há hegemonia duradoura e os campeões se alternam em períodos variáveis.
Algumas escolas demonstram brilho e não chegam ao topo, Hungria de Puskas, Holanda de Cruiff e Dinamarca de Laudrup.
O fato é que o Brasil está no obscurantismo e se recusa a admitir. Essa negação atrasa a recuperação. Quem acha Neymar gênio certamente não viu nada de Pelé, Beckenbauer, Rivelino, Maradona, Zidane (sem ordem). Quem insiste em comparar Neymar com Messi o faz por despeito, porque Messi é mais um do topo, como jogador de bola. Quantas vezes vimos os tops perdendo penalty? De Pelé só me lembro de um, contra o Corinthians, anos 60, fato que pôs o goleiro Heitor na História.
Para piorar, aqui a inteligência tática sumiu com a aposentadoria de Zagallo e a morte de Telê, os principais inovadores táticos do Brasil. Hoje todos os times daqui jogam "tipo Bulgária anos 80". E ainda se insiste em matar o meio-campo com a inutilidade de Ronaldo gaúcho. Não dá para assistir.
No Brasil só existe um time capaz de prender minha atenção pelo jogo que pratica: o Corinthians. Vejo o meu SPFC por pura esperança.
Resumo da época: o Brasil só ganha a Copa por milagre de Nossa Senhora Aparecida ou alguma mão santa na Fifa. Vai saber, porque esse esporte parece mais jogo de cassino do que de campo. Football Association mudou de sentido.
Enquanto isso, quem gosta de futebol assiste aos times de Espanh,a Alemanha e Italia. (eu não consigo curtir o futebol UK)

Edu disse...

É uma lástima que essa sua visão sobre o obscurantismo, da qual compartilho e que todo torcedor brasileiro que se preze deveria ter, é coisa de poucos, meu caro Salles. Basta ver a última pesquisa de opinião pública, após o jogo contra o Chile, que mostrou a confiança que a maioria ainda tem nos métodos do Felipão. Se a análise fosse mais realista, montar um time com o estilo de jogo pé no chão, personalizado como você bem ilustrou pelo Corinthians, seria a melhor saída para o atual momento. Mas...

Carles Martí disse...

Amigos, em questão de esperança sem lume no fim do túnel, os brasileiros estão mais do que doutorados. Se bem que possa parecer uma qualidade, percebo-a como um traço que prolonga as agonias coletivas, sempre à espera de um improvável alinhamento dos astros. Os ciclos, e não só os do futebol, são produtos de confluências ponderáveis. Se é um bem cultural de interesse geral, como dizia um ministro de Aznar por aqui, paixão, circo ou consolo, como pensam tantos outros, o futebol não poderia nunca ser um brinquedo particular, utilizado em benefício de uns poucos. Mais cedo ou mais tarde, a falta de um trabalho adequado vai-se refletir em resultados ruins, mas aí Inês é morta, a vaca já foi para o brejo e os responsáveis, para uma ilha do Pacífico. Ou nem isso, o que é pior.