quarta-feira, 17 de abril de 2013

Talentosos e incompreendidos, os russos de Capelo


Edu: Mesmo quando tinha a companhia de seus vizinhos, os da antiga União Soviética, a Rússia era um enigma do futebol: sempre revelou bons jogadores, sempre esteve à beira de ser uma potência, sempre teve muito dinheiro, primeiro das estatais e depois dos magnatas, mas nunca decolou. Agora, está prestes a ser uma das primeiras seleções a assegurar vaga na Copa de 2014. E com Fabio Capelo no comando.
Carles: Fabio Capelo, admirador declarado das políticas de Paquito Franco!!!! Provavelmente e apesar de todas as restrições à figura do italiano, sobre tudo à sua forma de pensar, é possível que ele tenha encontrado sua cara metade. Os russos parecem definitivamente dispostos a aprender a competir, algo de que sempre careceram. Jogar, no entanto, já demonstraram por diversas vezes que sabem. E como pupilos parecem mais humildes que, por exemplo, os Lampard, Gerard…
Edu: Com aqueles seus bons modos e as dificuldades que tinha com o idioma, Capelo jamais daria certo comandando ingleses. É peculiar o histórico dos russos. Na etapa da URSS, eram temíveis fisicamente, chegavam aos grandes torneios sempre envoltos em mistério, os adversários imaginavam que surgiriam grandes surpresas táticas, times imbatíveis. Depois do esfacelamento político, viu-se que aquele imenso pedaço do mundo fabricava bons jogadores, mas tinha um futebol desorganizado. Aí, nos anos 1990, os caras que ficaram ricos às custas do espólio das empresas estatais resolveram invadir o futebol. E o que se viu foram russos por todos os lados, gastando fortunas em clubes da Europa Ocidental e em outras partes do mundo, incluindo, lógico, o indefectível Abramovich e mesmo o tal Boris Berezovsky, recém falecido, que chegou a meter o bedelho aqui no Corinthians, através da MSI, de nefasta memória.
Carles: Eu não chamaria de desorganizado, mas de burocraticamente ultrapassado, como uma máquina defasada. Você tem razão quanto à revelação de talentos e isso acho que eles foram capazes de perceber, tanto que os dois antecessores de Capelo foram os holandeses Hiddink e Advocaat. Se bem que não sejam exatamente símbolos da revolução no futebol, a origem holandesa de alguma forma mostra as intenções de modernização do futebol russo. No fim, falhou o de sempre - falta de saber competir - e nisso, convenhamos, Capelo é um mestre. De quebra, declara-se um fã do Ajax de 1972 (quem não?). Quanto ao foco dos investimentos internos, basta olhar a lista de convocados para o próximo jogo, só o jovem Denis Chéryshev  joga fora da Rússia (no Castilla, filial do Real Madrid).
Edu: Talvez dê certo mesmo, um italianão com perfil militar para tentar dar padrão àquele jeito de jogar um tanto caótico. Muitos jogadores desse time russo parecem que estão envelhecendo, mas é uma falsa ilusão. Estão há muito na estrada os principais do time, como Arshavin e Pavlyuchenko, mas ambos estarão apenas na faixa dos 28 anos durante a Copa. E há jovens de reconhecido talento, entre os quais o meio-campista Igor Denisov e, principalmente, o garoto Dzagoyev. Atenção a este nome. Para alguma coisa serviu a montanha de dinheiro que a maior empresa do mundo de extração de gás, a estatal Gazprom, investiu no Zenit e o bilionário Suleiman Kerimov despejou no Anzhi Makhachkala.
Carles: Muitos deles, apesar da idade, já foram destaques individuais e em momentos distintos. Dzagoyev foi um dos grandes atacantes da última Eurocopa e Pavlyuchenko já tinha sido na de 2008. E parece que esse interesse do capital russo em manter craques e promessas bem próximos ajuda o trabalho de Capelo, que gosta da disciplina e abomina o estrelismo. Segundo disse ao jornal Rossíyskaya Gazeta, numa recente entrevista, está feliz em Moscou onde alugou um apartamento em que mora com a mulher. Não parece que haja o típico acordo mercenário em que os treinadores aparecem por lá só de vez em quando, para cumprir contrato. Capelo diz inclusive que gosta do clima, da neve.
Edu: Tem tudo a ver com o estilo ogro de ser do manager italiano. Mas se dinheiro não falta, nem material humano, acho que os russos ainda pecam pela pouca ambição. E não sabem sequer valorizar o próprio histórico em grandes eventos mundiais, porque na fase URSS, quando o Dinamo de Kiev era uma potência, eram sempre apontados como favoritos nas competições internacionais. E em torneios de jovens tiveram comprovado sucesso, foram várias vezes bichos papões olímpicos - ganharam duas medalhas de ouro - e também bicampeões mundiais sub-17.
Carles: Recentemente a Federação Russa de Futebol tomou a decisão de cobrar uma taxa dos clubes que contratarem treinadores estrangeiros. A arrecadação será revertida em programas de desenvolvimento do futebol infantil e juvenil, sabedores do grande potencial e fazendo valer a tradição dessa zona da Europa em investir na formação. Na verdade, ao contrário do que se pensa, a atual seleção não mudou ainda a sina do futebol russo que costuma começar bem as competições para depois ir perdendo pegada.
Edu: São os reis da primeira fase…
Carles: O próprio Capelo chama a atenção para isso e para a importância das próximas visitas à Irlanda do Norte e Portugal pela fase classificatória. Podem ser encontros decisivos para o futuro desse projeto que aparentemente é amplo o suficiente para impulsionar de vez a eterna promessa que vem do frio.
Edu: Esse é outro ponto, o frio. Como se sairão na Copa brasileira esses jogadores um tanto preguiçosos e pouco acostumados ao clima tropical? Talvez o grande projeto seja mesmo para a Copa que eles vão receber por lá, em 2018.
Carles: Mas sem dúvida, para isso, é importante mudar essa percepção externa que se tem do futebol russo já para a próxima Copa, em plenos trópicos. Será uma boa prova para essa imagem negativa e que, muito bem, pode estar associada a traços culturais incompreendidos.

2 comentários:

Salvador disse...

Não pude deixar de lembrar que quando garoto, me acostumei a ouvir que os russos comunistas podiam nos devorar. Como os únicos russos que eu via naquela época eram as gigantes da seleção de basquete feminino imbatível, cheguei a temer que fosse verdade. Só muito depois de descobrir que era tudo baboseira política que descobri as tenistas russas. Pena!

Carles Martí disse...

Sorte a sua, Salvador, ter a chance de desfazer os enganos, ☺ … isso não é para todo mundo. Inacreditável, mas ainda tem muita gente que segue convencida de que os comunistas comem criancinhas, de que todo brasileiro sabe sambar, de que todo espanhol sabe tourear, de que os norte-americanos são os mocinhos e que os iranianos e os norte-coreanos são os bandidos, etc., etc., etc.