quinta-feira, 30 de maio de 2013

Pep, entre hienas e brontossauros


Edu: Você soube do veto de Uli Hoeness a Neymar no Bayern de Munique?
Carles: Soube que Guardiola tinha pedido e que ele tinha vetado a contratação, mas não que fosse algo pessoal, relacionado com o garoto.
Edu: Pior, com os garotos brasileiros em geral, essa foi a justificativa.
Carles: Preconceito? Ou medo de fazer um negócio cheio de meandros, no momento em que está sendo investigado pelo fisco alemão? Bom, se esse fosse o motivo, Rossel também teria vetado.
Edu: Preconceito, prejulgamento, prepotência. Vários 'pres'. O caso do Breno, zagueiro ex-São Paulo, que teve um surto e pôs fogo na casa (ainda está detido na Alemanha) teria sido a razão, ou a desculpa. Na cabeça arejada de Hoeness, os jovens brasileiros são um negócio de risco. Mesmo o Neymar.
Carles: Ninguém é ingênuo de achar que garotos de 20 anos, cheios da grana, ídolos de massas, despreparados e recém-chegados a culturas diferentes, não vão dar um certo trabalho. É natural que esteja previsto um acompanhamento de perto durante a adaptação. Não é vigilância, orientação mesmo. Mas se o proprio Pep, quem provavelmente teria a maior responsabilidade nisso, achou que valia a pena, quem é Hoeness para vetar?
Edu: Falávamos outro dia da visível modernização do futebol alemão. Pois Hoeness é um brontossauro da velha Alemanha, está claro. E se foi uma recomendação de Guardiola, é um começo de trabalho que não poderia ser pior no Bayern. Pep pediu Neymar e recebeu Götze, com essa justificativa esfarrapada e discriminatória.
Carles: Estabeleçamos critérios, antes de seguirmos. Em que medida um jogador profissional de alto rendimento pode ser considerado uma mercadoria?
Edu: Para determinados cardeais, não tem medida, o céu é o limite. E esses cardeais não governam só na Alemanha. Estão aqui, aí, em todos os cantos. Mas ainda considero que muita gente importante pense de outra forma e garanta o que resta de humanização nesse esporte. Guardiola parece ser um deles. Lá mesmo na Alemanha, Klopp é outro.
Carles: É, mas Pep saiu de fininho, toccata e fuga de Rossel, para dar de frente com Hoeness. Quanto tempo vai aguentar? Para quando o próximo ano sabático?
Edu: Estamos vendo que a previsão se confirma: será um relacionamento pesado, ácido. Uma química nada fácil entre chefes germânicos e um líder latino. Mas você pode falar melhor que eu sobre as habilidades diplomáticas de Pep Guardiola.
Carles: Não é segredo que gosto do estilo dele, não costuma jogar a porcaria no ventilador, prefere proteger seus comandados. Foi assim no último ano de Barça, quando já se notava o desgaste, mas que em momento nenhum ele deixou transparecer. Requisito básico para quem tem que liderar um grupo de jovens. Vimos que, por exemplo, o estilo Mou é todo o contrário, ciumeira geral, rivaliza com os jogadores, cutuca em público e em privado, demonstrando, enfim, total falta de maturidade.
Edu: Não sei se essa reação do Hoeness é uma atitude para marcar território e deixar claro a Guardiola quem manda no pedaço ou se é uma aberração pessoal, o que me parece mais plausível vindo de quem vem, um cara que precisa prestar contas com a Justiça e está moralmente pressionado. Aí sobrou para o Neymar e para os brasileiros em geral. Mas, seja o que for, Guardiola terá uma experiência bastante diferente da que viveu em seu tempo de Barça, onde tinha razoável autonomia. Será um árduo aprendizado. Acho difícil ele conquistar a confiança dos jogadores logo de cara, apesar do carisma e do histórico que tem.
Carles: Só que lá no Barça, desde a posse de Sandro Rossel, teve que aprender a lidar com um estilo dissimulado. Às vezes é preferível enfrentar um brontossauro, uma ameaça sempre visível, do que uma hiena, não?
Edu: Mesmo assim, Carlão. Ele circulava num ambiente totalmente conhecido, cresceu ali, aprendeu futebol ali, tinha um certo controle sobre as pessoas, ainda que uma ou outra hiena. Travar uma relação mais próxima com a cultura alemã não é fácil, ainda mais em um clube com tamanha tradição, multicampeão, time da moda. Veremos agora o tamanho real do gabarito profissional de Pep Guardiola.
Carles: Um total incógnita, essa relação.
Edu: E como convém a um latino de raízes, o Brasil deu o troco. Exigiu a apresentação imediata na Seleção de Dante e Luís Gustavo, que o Bayern só queria liberar depois da decisão da Copa da Alemanha, no sábado. Como a Fifa respalda, os alemães não têm outra saída a não ser concordar. 
Carles: Espírito vingativo, represália, também não acho a melhor saída, inclusive porque acaba por condicionar o relacionamento dos jogadores com o empregador, que é o Bayern. Enquanto os cartolas insistirem no método do braço de ferro como política, tanto trabalhadores como simpatizantes seguirão sofrendo as consequências.
Edu: Nem sei se foi essa a ideia, de vingança. Mas aconteceu no mesmo dia e, portanto, não pode ser coincidência. De todo jeito, a CBF tinha esse direito, ou cortava os dois jogadores da Copa das Confederações.
Carles: Tá bom, não é vingança, vendeta, então. Coincidência? Pouco provável. Deixa ver se eu entendi. A CBF lê ou escuta ou confirma que o presidente do Bayern declarou que jogador brasileiro é sinônimo de confusão, e então decidem: vamos chamar os jogadores brasileiros do Bayern já! Faça-me o favor. "Son como críos".
Edu: Só confirma que há hienas e brontossauros por todos os lados.

4 comentários:

Antonio Salles disse...

Se o advogado do diabo pudesse opinar ele diria o seguinte:

Que tal ver o outro lado? Como tem sido o comportamento dos jovens do Brasil, nos últimos tempos, com mais de 30 anos sem educação básica qualificada, onde a o sonho de carreira de toda uma classe é ser modelo, cantar pagode, funk ou se destacar no esporte ? Buscam somente atividades sem formação humana, são só embalagens. Muitos deles saem do submundo, escondendo-se do crime e da violência doméstica, diretamente para o sucesso, tendo como única formação o pastor que ensina "louvar Jesus".
Eu não discordo completamente da cautela desse senhor. Há mentes mais otimistas e outras mais conservadoras.
É fato notório que diversos jovens brasileiros, alçados ao estrelato, transformaram-se em problemas quando os bolsos se encheram de dinheiro.
Para piorar, faz muito tempo que um deles não brilha de verdade no cenário mundial. O penúltimo foi Ronaldo, realmente diferenciado. O último foi o Gaúcho, que não era tudo isso. Só que custaram muito barato.

Carles Martí disse...

Aqui o diabo nem precisa de advogado, meu caro Salles, é tribuna livre. Onde é que eu assino? Só discordo das suas contas. Pelas minhas, são bem mais do que 30 anos. É muito tempo para recuperar, não acha? Um pouco de paciência mas ‘sin perder la ternura’. Enquanto isso, que tal uma educação pública valorizada, melhorada pouco a pouco, mais humanizada como você disse, incluindo matérias como filosofia, sociologia, artes, etc., já no ensino básico? Sem a necessidade de imitar ninguém, desmistificando verdades absolutas como a de educar visando o êxito financeiro.

Edu disse...

Se vamos discutir os problemas da educação no Brasil, certamente o sr. Hoeness não estaria na roda. E não foi essa ideia que pautou o veto a Neymar, do contrário o advogado do diabo estaria coberto de razão.

Antonio Salles disse...

Bão, eu não conheço esse senhor e só mencionei a Educação do Brasil porque ela é a causa da burrice e comportamento ruim desses moleques endinheirados sem educação básica, tanto de berço, como de acesso público. Nem são os casos de Neymar e Lucas, que têm berço. É que há muitos que denigrem o nosso povo. Basta checar.