quarta-feira, 15 de maio de 2013

Uma ousadia e velhas contradições


Edu: Quase...
Carles: Nem o Marquês dos Nabos poderia ser tão previsível.
Edu: Mas fui surpreendido com a ousadia de chamar Bernard, um garoto, 20 anos, muito ofensivo para os padrões da comissão técnica.
Carles: Imagino que Bernard e Paulinho eram clamor popular, não?
Edu: Sim, se bem que Felipão é um sujeito do contra e adora desafiar o clamor popular com forma de marcar território. Fez um pouco isso ao deixar de fora o Gaúcho.
Carles: Meu português anda enferrujado, traduza para mim esta frase da entrevista coletiva: "De cada dez treinos, um ou dois serão treinos fechados. Mas 80%, 90% serão abertos naturalmente". Nos 10 ou 20 por cento serão ensaiados os grandes segredos do estrategista Felipão?
Edu: São 10% ou 20% de segredos de estado, sobre os quais tenho um palpite: não há segredo nenhum. Eu e certamente a totalidade da valorosa mídia brasileira. Serão treinos de bolas paradas, ofensivas e principalmente defensivas. É o padrão do homem, o padrão de Murtosa e um pouco também do velho Parreira.
Carles: O fato de não estar convocado para a Copa das Confederações, favorece ou prejudica o Gaúcho? Com isso ele perde definitivamente o trem para a Copa ou acaba sendo preservado do o que pode ser considerado ainda uma fase de testes, mesmo valendo taça?
Edu: Pelo jeitão foi definitivamente rifado e não por razões apenas técnicas. Uma das coisas que ficaram claras nas justificativas do chefe foi a questão do comprometimento. Felipão tem sangue de sargento, nem de tenente, sargento mesmo. Deve ter armado um escândalo quando Ronaldinho chegou atrasado na última apresentação. E, coincidentemente, Ramires, outro que foi barrado, não se apresentou nos últimos amistosos na Europa porque estava lesionado. Felipão gosta do que fez Lucas, que, mesmo sem chance de jogar por uma contusão, viajou para conviver uns dias com os colegas de Seleção. Na cartilha de comportamento da Família Scolari isso se chama comprometimento. Se imaginarmos que o Gaúcho nem foi tão determinante assim em campo, pode esquecer de vestir a amarelinha enquanto Felipão estiver por ali.
Carles: Inclusive Felipão destacou o trabalho de Lucas e o seu espírito de sacrifício. E podemos considerar uma evolução real o fato de que na lista não prevaleça o modelo de volante xerifão, como celebra algum que outro jornalista brasileiro? Se bem que é uma meia verdade, não?
Edu: O xerifão é Fernando, além de o técnico ser bem receptivo à ideia de colocar David Luiz por ali, numa postura que vocês chamam de 'doble pivote'. Aí entraria Dante na zaga com Thiago e seria sacado um meia ofensivo. Não duvide disso. Arrisco dizer que Paulinho será um ilustre suplente e que Lucas vai brigar por uma posição com Oscar.
Carles: Eu tinha mesmo a sensação de que Rafa Benitez estava preparando o David Luiz no Chelsea para o Felipão. Ali naquela zona onde ambos gostam de construir um muro para quem os ataca, e também para a fluidez do próprio time. Incrível que enquanto os treinadores de moda tendem a deixar mais leve as defesas, alguns insistem em muscular o meio-campo. O velho sargento é um pouco contra corrente, como você já salientou.
Edu: Essa cultura de que um jogo se ganha ali, onde se destrói, e não 10 ou 15 metros adiante, onde se cria, é uma doença desse tipo de treinador. No caso do Felipão seria um modo disfarçado de colocar três zagueiros de alguma maneira, uma das obsessões dele, bombardeada pelos críticos. Por outro lado é preciso ressaltar que na repercussão da convocação por aqui, muito se falou da falta de líderes, com as ausências de Kaká e Gaúcho. Vejo um grande engano de quem defende essa tese. Kaká nunca liderou nada, nem nos bons tempos, e Ronaldinho muito menos. Se você quer saber, acho que essa decisão da comissão técnica foi o maior acerto da convocação. Pena que o time vai jogar de um jeito que não corresponde ao perfil do grupo de jogadores, no geral um conjunto bastante ofensivo, onde talvez só tenha faltado o Alexandre Pato.
Carles: Provavelmente o veto às divas decadentes é uma forma de proteção ao futuro do futebol brasileiro, mas talvez a intenção velada da comissão possa ser a de se proteger a si mesma, de evitar confronto com personagens de peso. Se bem que no caso dos dois… Quanto a Pato, qual é realmente o problema dessa eterna promessa? Quero dizer, mais além da evidente falta de capacidade (e vontade, pelo visto) dessa comissão técnica em recuperar um jogador que poderia ter um peso específico na formação de uma equipe sem uma personalidade definida.
Edu: Foi uma opção pelo Leandro Damião por estar mais ativo. Pato tem sido muito preservado pelo Tite no Corinthians, ainda receoso por contusões. Só essa falta de continuidade explicaria essa decisão, porque uma comparação técnica entre Pato e Damião seria uma piada de mau gosto.
Carles: Ainda sobre os líderes, mais cedo ou mais tarde eles emergem em qualquer grupo, sem necessidade de outorga. Não é surpreendente que os líderes escolhidos para o time do Felipão surjam do meio da zaga ou entre os meias defensivos. E pelo que conheço de Pato e Damião, permita-me discordar que eles sejam excludentes num plantel. São opções de jogo distintas.
Edu: São sim, Pato é muito mais dinâmico, busca jogo longe da área, tem repertório para criar. Mas Felipão fecha questão no centroavante de referência. Nesse ponto não há discussão, vamos ter que engolir.
Carles: Precisa explicar para o homem que não é pebolim, que os bonecos, neste caso, podem se movimentar. Uma última questão sobre uma especulação, a de que Pep Guardiola teria pedido Ralf para o Bayern. O corintiano parece não ter o perfil requerido por Felipão, mas chamaram o Luís Gustavo que já está lá, no clube campeão alemão. Que pode oferecer um e outro a um time moderno?
Edu: Só pode ser alguma preferência pessoal dos dois, eu diria mais do Parreira, que glorifica o futebol alemão. E Luís Gustavo nem titular é. Não entendi. Particularmente acho que, como xerifão, Ralf é um perfeccionista, existem poucos como ele. E como volante ofensivo, Ramires é muito mais efetivo que Luis Gustavo. Ou seja, temos uma imensa contradição.
Carles: Ou mais de uma.
Edu: Agora nos resta esperar as listas do Marquês e da Azzurra, que considero favorita para a Copa das Confederações.
Carles: É um bom palpite. Além de Prandelli ter conseguido uma squadra equilibrada, como se costuma dizer por aqui, é a "gran tapada" do torneio.

4 comentários:

Anônimo disse...

Kaka nunca liderou nada????

E no Milan onde comeu a bola e foi eleito o melhor do mundo? Levou o time nas costas e tinha postura!

Edu disse...

Você tem razão, ele comeu a bola e era o principal jogador do time. Mas nunca o líder. Os líderes eram Maldini, Pirlo, Seedorf...

Antonio Salles disse...

Agora eu começo a achar que a seleção começa a ter chance de, pelo menos, jogar alguma bola. Felipão conhece futebol, apesar das críticas. Tem personalidade de quem já ganhou muita coisa na vida.
Ronaldinho é um modelo ultrapassado, que joga para si e para a torcida. Como ele, hoje, havia dezenas no Brasil há vinte anos.
Basta ele enfrentar um time compacto na marcação e que não dá espaço para rebolar, ele some em campo. É só lembrar de Inglaterra e Chile, meros amistosos, quando ele tinha obrigação de jogar bem. Para piorar, taticamente, ele é um desastre. Ele desparafusa o meio campo de qualquer time.
Fez firula contra times desestruturados, espaçados, com defesas ruins, casos do SP e Cruzeiro.
Eu vou querer ver o Gaúcho rebolar contra o Corinthians, que é compacto e não tem nenhum grosso em campo.
Kaká foi ótimo, ainda é bom para times, mas nunca foi gênio. Kaká custa muito pelo que joga. Ele complementa times bem montados, não muda histórias.
Na minha opinião, os prazos de validade de Gaúcho e Kaká, em seleção, já venceram.
Agora resta torcer para que a nova geração do Brasil pare de jogar Cai Cai e comece a jogar Football Association.
A coisa está feia por aqui. O país parece a Bulgária dos anos 80. Só os jornalistas que vivem do futebol vibram com os jogos medíocres que passa na TV paga ou aberta. Em cada 10 gols, 8 são de cabeça ou falha grosseira. Não se vê mais de 5 passes seguidos. Os caras treinam todo dia e conseguem tomar gol de jogada iniciada com batida de lateral (básico para amadores).
No Brasil há apenas 2 times competitivos e bem treinados: Corinthians e Fluminense.
Há 30 anos havia pelo menos 8 de primeiro escalão.
Vamos ver hoje, como se sai o Corinthians. Esse eu tenho saco de ver.

Edu disse...

Gostaria de compartilhar de seu otimismo, Salles, a respeito do Felipão. Acho até que ele se move bem no ambiente do futebol, mas não pelos seus conhecimentos, muito mais por sua experiência no trato com determinados tipos de jogadores. Talvez por isso tenha tido o raro bom senso de afastar Ronaldinho e Kaká, que, como você frisou, já não mudam histórias. Abraço.